Destino final: Portugal

Quatro pessoas, quatro cidades do mundo e um só destino: Leiria. Numa cidade com mais de catorze mil estrangeiros conta-se a história de uma chinesa, um indiano, uma canadiana e uma brasileira. Três gerações diferentes cujo passaporte passa o mesmo destino.

A viagem inicia-se em Goa, 1961. Numa fuga para o Paquistão e posteriormente uma longa viagem até Portugal, foi assim que Cyrano Rodrigues veio para Lisboa aos 9 anos de idade. A família veio como refugiada e se não fosse o apoio da Cáritas não teriam ultrapassado as dificuldades iniciais. Em adolescente desejava ir viver para Inglaterra com a família, mas deu o nome para a guerra, por isso não pôde abandonar o país. Enquanto esteve na guerra os pais mudaram-se para Leiria. “Não gostei nada quando vim para cá porque estava habituado a Lisboa, ao movimento e a ter tudo ao pé e Leiria ainda era uma aldeia.” Numa viagem de férias para a Suíça decidiu ficar no país e construir uma vida. Viveu lá até 2012.

O próximo avião parte do continente americano – Toronto. Uma jovem universitária embarca, em 1995, na aventura de viver sozinha no país dos pais. “No Canadá valorizam muito a experiência no estrangeiro, e possuindo raízes portuguesas, podia ter vantagens”. Nélia Diogo(42 anos) tencionava voltar para o Canadá, mas a história de amor falou mais alto e optou por ficar em Portugal.

Diretamente do samba do Brasil para a cidade de Fátima, Luísa Savala(21 anos) veio para Portugal acompanhada pela sua família. Deixou a avó, os amigos e o curso de publicidade do outro lado do oceano e passou este último ano a descobrir o que Portugal tinha para lhe oferecer. Apesar do curto espaço de tempo em Portugal, já são visíveis algumas mudanças. “As pessoas brasileiras já percebem que falo algumas coisas aqui de Portugal, a minha família já me diz que estou a falar português de Portugal.”

O último passaporte passado tem nacionalidade portuguesa, mas não se reconhece como tal. É à China que ela chama casa e, apesar de ainda só ter visitado o país duas vezes, esta é a nacionalidade que tanto adora. Catarina Wag (19 anos) é portuguesa, mas os pais são chineses.  A cultura e tradições asiáticas sempre foram implementadas em casa e a ambição de saber mais sobre o seu país traduz-se na área que estuda – Tradução e Interpretação Português Chinês, um curso que oferece a oportunidade de viver um ano em Pequim e outro em Macau.

 

Já sei falar português, qual o próximo passo?

A língua pode ser um problema, porém esse costuma ser o menor de todos. A cultura difere de país para país e algo banal na China pode ser impensável em Portugal.

Nélia teve a desvantagem de vir para cá sozinha e de não ter o apoio emocional que precisava com a mudança. Recorda com nostalgia as refeições que preparava para a universidade. “Nós lá temos o hábito de preparar uma sandes, uma peça de fruta e um sumo. Pomos tudo num saquinho e vamos para a faculdade.” Era na hora de almoço que atualizavam os mexericos, tal como se vê nos filmes. Quando veio para Portugal manteve esse seu ritual, mas estranhava porque ninguém se juntava a ela nestes momentos de prazer. “Um dia, houve uma colega que me perguntou se eu queria que ela me pagasse o almoço, porque claramente eu tinha dificuldades financeiras porque não comia na cantina”. Nélia comenta a sua surpresa quando este momento aconteceu, na altura pensava que elas é que estavam erradas e toda a situação era absurda. Passados 21 anos de estar em Portugal, confessa ainda se admirar com toda a vida boémia que os portugueses levam. “Aqui vive-se. Há o café da tarde, o lanche na padaria, o convívio à noite. É tudo diferente.” Para a professora este é dos pontos mais positivos de Portugal. Há uma partilha de experiências e momentos, no Canadá essa partilha também acontece, mas é em situações mais esporádicas. “Um jantar para 4 pessoas lá, não fica a menos de 400 dólares” e “ir a uma discoteca implica pagar 20 dólares de entrada sem consumo e um cocktail é capaz de ser 15 dólares cada um”.

O que seria mais fácil para Luísa teve o rumo inverso. Após viver em vários estados brasileiros e ter feito dois intercâmbios, a maior dificuldade apontada foi criar laços com os portugueses. A vinda para a universidade só no segundo semestre dificultou a integração e sentiu que a turma não estava tão predisposta a conhecê-la como se fosse no início do ano. “Achei os portugueses muito fechados, pensei que seria muito mais fácil.” A brasileira desabafa ainda sobre a falta de interesse dos portugueses pela sua cultura. “Perguntavam sempre por algo comum e que já sabiam. Nunca quiseram entender realmente como era a minha cultura, só um lugar comum.”

Catarina e Cyrano depararam-se com algumas dificuldades na escola. Catarina lembra os momentos em que as outras crianças gozavam com as suas feições chinesas. “Nunca liguei muito porque tenho orgulho de ser chinesa, apesar de ter nascido cá”, garante a jovem. Com Cyrano aconteceu o mesmo, mas pela diferença da cor. “Quando vim para cá o meu tom de pele era mais escuro, agora não vou muito à praia estou mais claro [risos].”  Comenta que naquela altura era um rapaz estranho na escola e foi difícil ter de começar tudo do zero na escola. “Era posto de parte, a professora até me mandou para o fundo da sala”.

 

Saudade, uma palavra tão portuguesa

Falar do passado evoca lugares, pessoas, momentos, um sem fim de recordações.  Quando se fala de memórias antigas todos expressam nostalgia.

Nélia recorda o secundário como os seus melhores anos de vida. “O high school é exatamente como nos filmes”. Entre histórias confessa que decidiu seguir a área da educação devido ao projeto de inclusão que existia na sua escola secundária. Todos os alunos eram responsáveis por ajudar e acompanhar um colega com deficiência mental ou motora. “Foi assustador, mas tão gratificante!”, desabafa a professora.

Luísa sente saudades das frutas tropicais e do arroz com feijão que, diz com risos, não conseguir fazer cá da mesma maneira brasileira. Se pudesse, queria trazer para Portugal as Ilhas Itaparica com o seu “pôr-do-sol mágico” bem como o calor da sua terra para poder manter a tradição de mergulhar no mar na passagem de ano. Luísa tem intenções de ensinar aos irmãos mais novos tudo o que de bom o Brasil tem, uma vez que “agora vão crescer e estudar aqui e vão ter como referência os parâmetros portugueses”. Pretende contar-lhes sobre as suas raízes. “Se algum dia voltarmos para o Brasil vai ser muito mais fácil para eles voltar do que foi para mim chegar [a Portugal], vão ter sempre uma referência minha e do meu pai”.

Por mais anos que se esteja num país há costumes que não mudam. A cultura portuguesa já está enraizada na família de Catarina, contudo os pais fazem questão de manter o mandarim como idioma, bem como o ideal de que os pais estão acima de tudo e que é dever dos filhos cuidarem destes quando envelhecerem. São dois ensinamentos presentes na educação de Catarina. A sua família já se habituou à cozinha portuguesa, mas em casa optam quase sempre comida chinesa.

Cyrano como cresceu cá, a única coisa que mantém é a cozinha indiana e goesa. Abriu um restaurante em Leiria para homenagear a sua mãe. “Faço a comida tal como [a mãe] fazia na Índia.” O facto de ter vindo tão cedo para Portugal fez com que perdesse muita coisa da sua terra, já esqueceu a língua hindu, mas recorda, nostálgico, as artes manuais que aprendeu com a mãe, como as flores de papel que construíam do zero.

Nélia gosta de manter o brunch ao domingo de manhã, as festividades e tradições, a decoração da casa de acordo com a época do ano e faz da língua inglesa a sua profissão, pois é professora de inglês. Se pudesse, “trazia a cidade toda, o estilo de vida, a diversidade.”

 

Há mar e mar, há ir e voltar

Por mais que se goste de um país novo, o país de origem tem sempre um encanto especial, não só pelas recordações, mas também pelas pessoas que se deixa para trás.

Luísa adora a comida típica portuguesa e o facto de existir muitas culturas e tradições diferentes dentro de um país pequeno, “cada sítio tem a sua essência” comenta a jovem. Introduziu muito mais peixe na sua alimentação por haver “muito mais variedade” e os preços serem mais baixos, também já se rendeu ao bom vinho português: “antes não bebia [risos]”. Apesar de estar a gostar da experiência, não tem intenções de ficar em Portugal. O próximo destino será Espanha.

Nélia é uma apaixonada pelo seu país e confessa a enorme vontade de voltar, ficar nunca esteve nos seus planos. “O Canadá é um país lindo, civilizado, justo em termos de direitos”. Os amigos canadianos insistem que pode ter uma vida melhor lá, mas o amor fala mais alto e o facto de agora ter cá os seus pais é um motivo para continuar por Portugal. “Voltar para lá agora é um recomeçar a vida inteira, mas tenho a certeza que teria muito apoio”.

“Eu tinha vontade de lá estar, mas já não era a minha terra”, conta Cyrano. Após ter viajado por algumas cidades do mundo considera Portugal o seu país.

Catarina não quer viver na China porque acha o país pouco seguro. “O mundo do trabalho na China é muito complicado. É muito fácil ser enganado porque há muitas imitações e empresas falsas”. Sendo a China um país tão populoso é outro dos motivos que faz com que a sua família prefira ficar em Portugal. “Cá é tudo muito mais calmo, as filas no supermercado, por exemplo, não existem”. Catarina quer ficar pela Europa e pretende futuramente passar pelo menos o mandarim aos seus filhos.

Tendo vindo para Portugal por vontade própria ou não, estas pessoas já criaram laços com o país, com as pessoas e adaptaram o seu modo de vida. Nada os fará esquecer de onde vêm, a sua cidade e os seus costumes. O passaporte está sempre aberto para novas viagens e aventuras, mas até lá a paragem confirmada é Portugal.

 

 

 

Joana Ferreira e Marta Santos

 

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Anos 90, uma geração negligenciada pela literatura?

Romance histórico ou thrilher psicológico. Poesia ou teatro. Fernando Pessoa ou Sophia de Mello Breyner.  São inúmeras as opções literárias que este país à beira mar plantado oferece. Mas e os jovens, onde se encontram no meio dessa vasta oferta?

29 de maio de 2016, o site da Bertrand está aberto no seu top 10 de ficção. Apenas dois livros pertencem a autores portugueses. Algo se passa, será falta de interesse do público? A leitura deixou de ser algo comum para os portugueses, preferem os gadgets. Mas para quem ainda lê, o que se passou para deixarem de ler autores portugueses? Para Joana Xisto, youtuber do canal literário Little House of Books –que já conta com quatro mil seguidores-, ler livros de autores portugueses não é um hábito tão comum quanto gostaria. Afirma ainda que procura jovens escritores para ler, sendo uma preocupação divulgar a sua opinião quanto aos livros.

Os jovens, por uns são adorados, por outros representam imaturidade e falta de conhecimento. Eles existem e muitos são os que querem ver as suas palavras publicadas. Na Chiado Editora –editora que lança mais jovens para o mercado– os critérios para lançar livros passam, essencialmente pela qualidade. A editora garante ainda que os jovens são “uma preocupação da Chiado desde o momento em que foi criada e um princípio do qual não abdicamos.”.

André Fernandes (25anos), Maria Francisca (18anos) e João Gabriel Batista (20anos). Para além de pertencerem todos à última década do século XX, também já lançaram, pelo menos, um livro. Na opinião do trio, em Portugal há poucos leitores, mas muitos escritores. é complicado chegar até às editoras e garantir que elas leem a sua obra. João Gabriel realça a falta de apoio das editoras no momento de divulgar as obras, “Não tens o apoio de divulgação que era preciso, alguém que começa a escrever um livro agora, tenha 8 anos ou 80, muitas vezes não tem o apoio que é necessário para dar o salto para o mercado e ser lido.”.

De rabiscos para as livrarias

Se para João Gabriel escrever um livro começou com uma brincadeira de amigos, para Maria Francisca é uma ambição desde pequena. Começou por lançar um blog – Coisas do Coração – e a reação do público foi muito positiva. “Fui percebendo que uma coisa que é boa para mim, também era boa para eles e era isso que eu queria fazer na minha vida.”, confessa a jovem. O trio concorda que a maior inspiração são as pessoas que os rodeiam. João Gabriel admite que o pico da sua imaginação é alcançado quando passa por momentos mais difíceis ou de alguma tristeza. André Fernandes tem outra motivação: “desbloquear temas que as pessoas têm como tabu.”.

Em 2015 a Chiado Editora lançou mais 347 autores com menos de 26 anos. As vendas foram positivas e a editora assegura que “existe espaço para jovens autores no mercado editorial, apesar das portas estarem praticamente todas fechadas.”

Sem pressões e controlos por parte das editoras, assim vivem os escritores. “Aqueles contratos que aparecem nos filmes, também acontecem em Portugal. Contudo são raros, então para jovens escritores é impossível.” comenta João Gabriel.

Das livrarias para as escolas

Em 2013, quando lançou o Tia Guida, André nunca esperou ser convidado para dar palestras em escolas. Foram os dois mil seguidores no Twitter e, mais tarde, no Facebook que levaram o livro aos locais de ensino.  Quando questionado sobre o reconhecimento do seu trabalho, o escritor confessa que “o reconhecimento é sentir que aquela vida que contactou com a minha e com a partilha que eu fui ali fazer foi tocada por isso.”. Contudo não foi tudo um mar de rosas, para o autor a idade nem sempre foi um fator positivo, por vezes sentiu desconfiança por parte do público mais velho. Outra dificuldade foi encontrar o público a quem se queria dirigir. “Tu disparas em todas as direções, queres dar-te a conhecer como artista de qualquer forma ou focas-te? Eu aprendi que tenho de me focar.”. Atualmente já conhece o seu público e já sabe quem o lê. “Não quer dizer que pontualmente eu não chegue a outros públicos, mas aquele que me realiza é este público que tem contactado comigo desde o Tia Guida.”

Maria Francisca lançou o seu primeiro livro aos 15 anos, Em Troca de Nada, e também dá palestras e participa em conferências. Em Troca de Nada fala de temas como o bullying e problemas de adolescentes, assuntos esses abordados nos seus encontros com o público mais jovem. A autora sente uma maior proximidade com o público devido à idade, mas garante também sentir apoio por parte de pessoas mais velhas. “Olham para o meu trabalho, dizem que sou um exemplo e que o futuro do país passa por mais jovens empreendedores.” Em 2015 lançou o seu mais recente livro – Madalena – e espera continuar a participar em projetos nas escolas. Maria Francisca confessa que tem “bastantes pessoas que me seguem arduamente e que vão ouvir-me onde quer que eu vá. Isso é bastante positivo e motivador.”

Era Digital: uma mais valia?

As editoras promovem os livros, porém apenas promover já não é o suficiente. A vantagem de se crescer numa era digital oferece a esta geração de escritores uma facilidade na autopromoção. “Agora com o Facebook, Instagram e Snapchat, tudo isso me vai lançando.” garante Maria Francisca. André Fernandes também é fã assumido deste tipo de promoção, aliás os seus livros são a prova disso mesmo, “No Tia Guida os capítulos eram hastags, se as pessoas quisessem referir um capítulo podiam fazê-lo.”.

As dificuldades que estes jovens enfrentam são muitas, mas a força de vontade e a paixão pela literatura é maior.  Afirmam querer continuar por Portugal e escrever faz parte dos planos. Mas as utopias literárias destes jovens escritores limitam-se a ficar pelo papel.

 

O início dos inícios

Boa noite caro leitor,

Dou hoje início à minha mais recente aventura. Neste espaço irei partilhar os meus trabalhos – quer os que realizei para a escola, quer os que fiz de livre e espontânea vontade.

O meu objetivo é crescer e, por isso, estou muito recetiva aos seus comentários. Espero que possa encontrar uma evolução nas minhas publicações.

Fique desse lado para ver o que aí vem.

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Beijinhos,

Marta Santos